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Poemas do livro Olhos de meio-dia
2006
© Fernando Paço
textos protegidos pela lei do direito autoral.
todos os direitos reservados ao autor.
A
VIDA NO PONTEIRO
A perfeição nem sempre ama o amor,
o tempo no ponteiro marca a partida,
uma briga se inicia na exatidão,
um ônibus carrega mágoas no vidro,
outros balançam resignados às 18h.
A perfeição ama quando quer,
um casal indissolúvel ama quando não deseja,
deseja quando a hora é um instante odioso.
Quantos minutos faltam para asfaltar o sol?
Essa luz que incomoda quem só espera a sombra,
que reverbera nas cicatrizes dos edifícios.
Os arquitetos queriam vazios perfeitos,
mas apenas criaram espelhos,
refletindo ainda mais nossas deformidades.
Enclausuram o cheiro verde de algumas memórias,
planificaram sem sucesso a quarta dimensão,
e as outras três acompanham o itinerário
dentro de um veículo, dentro de um relógio.
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"PENSO, LOGO EXISTO"
A
galáxia é a célula que corre em minhas veias. Meu corpo, o universo,
meu sangue, o vácuo com bilhões de estrelas hepáticas e corpos celestes
unicelulares. O sistema solar é o átomo, o sol, o núcleo e, sendo
universo o meu corpo, outros homens formariam conjuntos universais
que estariam dentro das células de outra pessoa. O mesmo ocorreria
com outros seres universais dentro das células de outros, infinitamente.
E, assim, o imensurável cosmo diante do espelho, retornaria concentrado
a esta gota de sangue, que agora, salgada, escorre sobre o fino
corte de uma indefectível lâmina de barbear.
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PEQUENO
POEMA EM PROZAC
De bruços e com os pés para fora da cama, esmagando ossos e compromissos
no ventre escuro dos sonhos, eu não sei quando despertarei para
limpar a baba do ócio, ou irei até a janela dar o ar da graça aos
olhos dos engravatados mercadores de horas, comedores de ambrosia,
dar o bom dia às mais belas infelizes, se nada importa, "ver a paisagem,
a Glória, a baía, a linha do horizonte", se o que eu vejo é a bula,
a tarja preta sobre a mesa, onde repousam o seio murcho de uma maçã,
um café raso, e esta desconhecida manhã fria de março. |
3 Poemas Publicados na
Revista
Poesia Sempre 21 em 2006
2006
© Fernando Paço
textos protegidos pela lei do direito autoral.
todos os direitos reservados ao autor.
Foto
O fotógrafo que desfocou a placidez
de minha infância não foi capaz de
deixar o amor menos nítido.
O preto-e-branco deixou
cores na memória.
Não lembro o cerúleo celeste,
se a mãe vibrava em cádmio,
se era mesmo cinza nosso sorriso,
ou amizade dourada de irmão.
Não lembro mais o tom da inocência.
E se tudo fora esmaecido pelo tempo,
pouco me importa.
Vejo que desta prisão de luz e sombra
algo aconteceu oculto na imperecível
alegria do instante.
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Teu
azul
Nado
em ondas turquesas
que rebentam em teus olhos,
quando amas.
Mergulho na volúpia marinha,
de tua boca na minha,
quando desejas.
E sempre transborda de azul
o teu corpo que afaga
e naufraga em mim.
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De
novo o último dia
Um peito de aço arremessou
para dentro de casa
o imponderável.
No asfalto meu pai fora
vencido pela velocidade.
Desde o último dia
seu silêncio em decúbito,
ainda me faz tropeçar
saudade.
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Poema
da contracapa do livro" Olhos de meio-dia":
A
cada página
Bem lavrada a palavra é
semente que teima
em ser livro.
Teima em ser livre-tema,
livre-tempo,
livre-poema,
livre para a vida,
ávida,
a cada página.
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