![]() Capa do livro de estréia lançado em 20/09/2007 |
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PREFÁCIO
- Suzana Vargas
Nascimentos poéticos "Hoje/aprendi, de vez,/ a nascer toda manhã" é o que nos diz Fernando Paço Borges em um dos poemas de Olhos de meio-dia, seu livro de estréia. Livro que já traz algumas marcas do que o poeta se propõe: nascer diariamente para a palavra como artífice e como homem, sabedor de que a poesia é um susto e um nascimento diário. Daí a diversidade de linguagens, de imagens e de uma dicção coloquial recorrente, não obstante algumas formas inusitadas onde o poema se concretiza em ângulos diversos que acompanham significados não tão escondidos assim, como nos poemas Vela , Luz ,Flor ou na bela prosa poética de Pequeno Poema em Prozac.Temas universalmente traduzidos pelos poetas como infância, adolescência, amor ("Vem dos teus ais de aurora/vogais em alarde,//da nudez carnuda dos teus lábios/outra vez um poema") em seus textos adquirem um sabor vivo e novo que se repete de outro modo em belos metapoemas, provando que "Bem lavrada/a palavra é semente/que teima em ser livro". Pois a poesia de Fernando é fruto de um paciente trabalho de elaboração não somente artesanal, é sinal de um amadurecimento interno, de descobertas, leituras, releituras onde aparecem influências confessas de Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Drummond para ficar em apenas três mestres da palavra renovada em simplicidade e inventividade. O resultado de tudo isso são textos ousados e densos que nem pela ousadia abandonaram a emoção, palavra semi-esquecida pela modernidade, envergonhada até, não se sabe bem porquê. Mas essa mesma emoção faz o poeta cruzar as fronteiras do lugar comum e nos acenar com poemas como Um Nome ("Com sono profundo/e sem fome, durmo,/ enquanto, no mundo,/ela consome/um nome por segundo") ou A vida no Ponteiro("A perfeição nem sempre ama o amor/o tempo no ponteiro marca a partida,/uma briga se inicia na exatidão,/ um ônibus carrega mágoas no vidro/outros balançam resignados às 18h//A perfeição ama quando quer,/um casal indissolúvel ama quando não deseja,/deseja quando a hora é um instante odioso...")ou ainda com Quando mordo uma evidente mostra do talento de seu autor no manejo do vocabulário e das imagens ("Quando mordo/eu te nomeio,/nuvem"). Muita coisa ainda se poderia acrescentar a esses breves comentários, mas me parece suficiente dizer que a poesia recebe com Olhos de meio-dia um belo livro: pleno de encantamento, de força, de humor , de cuidado e sobretudo de sinceridade diante da poesia, qualidades raras numa estréia. O que faz de Fernando Paço Borges mais do que um nome promissor na diversificada produção poética brasileira contemporânea. Suzana Vargas |