| |
|
|
| |
Questões
sobre poesia debatidas na oficina da Estação das Letras.
Perguntas levantadas pelo poeta Carlito Azevedo
de 26 de novembro a 03 de dezembro de 2008.
|
|
| |
1.
Carlito Azevedo: A sua produção poética atual já se dirige,
em seu entendimento, para a feitura de um livro de poemas, ou você
a considera como uma série de tentativas e experiências que:
a. Visam a "treinar" a mão e a mente, razão e sensibilidade, para
a futura produção dos poemas que você pretende escrever;
b. Tentativas e experiências cuja coerência interna, que supostamente
deve entranhar todo livro, você ainda não conseguiu vislumbrar,
mas que surgirá menos de um esforço consciente do que de certo remanejamento
que cada poema impõe ao conjunto em que é inserido;
c. Outros. |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: A intenção de publicar existe. Escrevo poemas sem
ter em mente um plano preestabelecido de unidade. Aleatoriamente,
os poemas vão me indicando caminhos. O processo é complexo, exigindo
constantes remanejamentos. Poemas que tematicamente podem ser díspares
por um lado, por outro me agradam pela forma ou pela combinação
de ritmos e idéias. A disposição mais harmoniosa, as releituras
exaustivas, as críticas na oficina literária vão aos poucos me direcionando
para uma possível publicação. |
|
| |
|
|
| |
2.
Carlito Azevedo: W. H. Auden costumava dizer que um poeta só
é poeta no instante em que coloca o ponto final em um poema, pois
antes disso é apenas um poeta " em potencial", e depois disso é
"um sujeito que parou de escrever". Comente isso em relação à sua
experiência com a criação poética. |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Um poema depois de um ponto final se torna mesmo
algo dramático. É o vazio a ser preenchido pelo próximo poema, que
não se sabe quando virá, se em um minuto, um dia ou um ano. E quando
chega, novamente necessita de um outro ponto final. Assim por diante,
num desassossego cíclico. Neste sentido um ponto final pode ser
literalmente um ponto final ou a busca de uma reinvenção de si mesmo,
ponto a ponto. Caminho esse longo, com o qual me identifico. |
|
| |
|
|
| |
3.
Carlito Azevedo: Uma história do poeta francês Max Jacob: ele
leu uma entrevista do milionário Rockefeller onde este dizia que
só se tornou o homem mais rico do mundo porque desde criança, a
tudo o que via, a todos que conhecia, a cada sensação experimentada,
a cada cálculo ou acidente fortuito, a tudo enfim com que deparava
perguntava-se internamente: "como isso pode me tornar um sujeito
ainda mais rico".A partir disso, Max Jacob comentou que se no campo
das finanças isso pode não ser muito ético, no campo da poesia é
maravilhosamente certeiro: a tudo o que nos ocorre ou deixa de ocorrer,
permanecendo no paraíso perdido das possibilidades não cumpridas,
a uma paisagem, a uma frase entreouvida, a uma determinada combinação
de cores em local inesperado, a um momento especialíssimo ou totalmente
rotineiro e banal, a uma notícia de jornal, a tudo isso devemos
nos perguntar: como isso pode nos tornar um poeta ainda melhor?
Pense em qualquer coisa que tenha visto, sentido ou ouvido, em qualquer
situação insólita ou comum, que em nada lhe tenha despertado a vontade
de escrever um poema ou desenvolver qualquer reflexão sobre poesia,
e tente ver o que aquilo pode ter com a poesia que você quer escrever,
de que modo aquilo pode torná-lo(a) um poeta ainda melhor. |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Penso que para o poeta tudo é matéria para desentranhar
a poesia. O desafio é este, abrir o canal da percepção para as coisas
menos importantes também. Por exemplo, observar uma fruta em cima
de uma mesa pode ser tão proveitoso quanto fazer um passeio no bairro
e presenciar um assassinato. Neste universo de possibilidades, o
poeta pode extrair o seu melhor. Ele arrisca, capta um fato, obscuro
ou claro, ético ou antiético, filtra a experiência, nobre ou banal,
e por fim dá o seu registro de forma única e comovente.
Tudo o que pode torná-lo um poeta ainda melhor é o combustível essencial
que o move. |
|
| |
|
|
| |
4.
Carlito Azevedo: Qual pensa que é a melhor qualidade de sua
poesia? E qual o defeito ou fraqueza contra o qual você mais tem
que lutar na hora da criação, justamente por ser o que mais recorrentemente
o atinge ou tenta atingir em seus escritos? |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Creio que uma qualidade que encontro em meus poemas
está na criação de boas imagens. Busco aliar as melhores metáforas
sempre a um texto mais simples e conciso. Quanto ao meu defeito
este ocorre, algumas vezes, numa primeira idéia lançada em algum
novo poema. Tomo cuidado, sempre que possível, para que o texto
não resvale no campo do julgamento, no campo sentimental, ou na
grandiloqüência. |
|
| |
|
|
| |
5.
Carlito Azevedo:
Há lindos poemas obscuros , como esse:
Cristal( Paul Celan)
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho.
Sete corações mais fundo bate a mão à porta.
Sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.
E há lindos poemas de absoluta clareza, como esse:
POEMAS SÓ PARA JAYME OVALLE ( Manuel Bandeira)
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já tivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei.
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
Então, em relação à sua produção poética e aos seus gostos poéticos,
o que você diria:
a. A obscuridade, o mistério, o grau de inteligibilidade muito relativo
são defeitos a evitar em nome de uma clareza mais democrática, de
uma inclusão maior do leitor, que do outro modo se sente excluído
do texto.
b. A obscuridade, o mistério, o grau de inteligibilidade muito relativo
são uma necessidade absoluta para não baratear simploriamente uma
experiência complexa, de caráter realmente mais tortuoso, afinal
o poeta não está aqui pra resolver problemas para os outros, e sim
para mostrar que a coisa mais simples pode conter em si megawatts
de mistérios que só a automatização do nosso olhar nos impede de
ver.
c. Outros. |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Eu procuro a simplicidade e a inclusão do leitor
na experiência do texto. Busco na minha satisfação a sua identificação.
Não condeno o obscuro nem a clareza. Creio que pode haver uma interessante
mistura destes exercícios em um poema. O importante é a qualidade
na combinação das palavras, cercadas de mistério, bons ritmos e
boas idéias. Seja numa quebra sutil de um sentido, seja na escrita
de um verso simples, coloquial, mais inteligível. |
|
| |
|
|
| |
6.
Carlito Azevedo: Segundo Baltasar Gracián, grande autor barroco
espanhol, quando falamos de nós mesmos:
a. nos bajulamos (o que é idiota)
b. nos recriminamos ( o que é estéril)
c. ficamos logo sentimentais ( o que abre o portal para a pieguice);
sem discutir obrigatoriamente esses três pontos, como você pensa
a utilização do "eu" na poesia, na sua poesia? Se puder termine
seu comentário com exemplos analógico do gênero:
O "eu" na minha poesia age como um espião.
O "eu" na minha poesia está mais para o bandido que para o mocinho.
O "eu" na minha poesia entre o balé e a revolução, fica com o balé.
|
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: O meu "eu" é um observador curioso a tudo o que
é novo, inimaginável e impensado. Acho que me incluo na seara dos
poetas espiões que ficam a espreita do imprevisível. Procuro, sem
disfarce, ser nulo, um sujeito oculto, sem ser visto como um bandido,
mocinho, revolucionário ou amante de balé. Fico com a nulidade que
oferece as melhores lupas aos poetas. |
|
| |
|
|
| |
7.
Carlito Azevedo: Ezra Pound dizia que a maior qualidade que
encontrava em um poeta era a sua curiosidade. Quando procurado por
poetas estreantes, colocava sua confiança menos naqueles que já
porventura demonstravam alguma habilidade técnica ou algum poema
plenamente realizado, e mais naquele que mesmo que não apresentasse
a princípio nenhum texto digno de nota, mostrava-se o mais curioso
em relação às coisas. Sua recomendação aos poetas era: "Curiositas".
Inclusive pela poesia. Mais do que aquele jovem que apresentou um
bom poema, Pound apostava naquele que mais suava frio ao saber que
ia ser lançado um novo volume com traduções da poesias de François
Villon, e que dormiria mal até o dia seguinte, quando correria para
a livraria atrás do volume querido, o que me lembra muito essa estrofe
de Wallace Stevens:
Um poema como um missal achado
na lama, um missal para esse moço
o estudante que mais arde por aquele
livro exato, ou menos, uma página,
ou pelo menos uma frase, aquela frase,
gavião de vida, aquela frase latinada:
saber; missal para ruminar. Olhar
nos olhos do gavião e recuar
não do olho, mas do prazer de vê-lo.
Eu toco, mais isso é que eu penso.
( " O Homem de violão azul")
Lembre de uma ocasião em que um livro foi lançado, uma exposição
inaugurada, um filme ou peça entrou em cartaz, qualquer coisa assim,
que tenha te deixado num estado desses, achando que ver aquilo era
mais importante do que quase tudo. Falta de curiosidade para um
poeta é igual a quê? |
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Tenho fascínio por tudo que envolve a criação de
imagens na arte. Falta de curiosidade artística, em geral, não faz
sentido a quem pretende escrever poemas. Ver um quadro de Velásquez,
Edward Hopper, um filme de Wood Allen, um romance gráfico de Will
Eisner, uma arquitetura de Richard Meier, ler os poemas de Ferreira
Gullar, de Manuel Bandeira, Drummond são experiências irreversíveis
e transformadoras do meu olhar sobre o mundo. Cada vez que eu vejo
uma grande obra, seja na poesia, na pintura, no cinema, nos quadrinhos,
na arquitetura, tenho a sensação de que tudo já fora eficientemente
criado. Neste sentido, o poeta deve se inteirar a outras formas
de linguagem. Se informar sempre, para não cair um dia no engano,
na obviedade, ou no pastiche. |
|
| |
|
|
| |
8.
Carlito Azevedo: De um poema, o que se pode esperar?
a. a verdade?
b. o entretenimento?
c. Um pensamento?
d. Uma lição de vida?
e. Coisas mais abstratas como: que aumente nossas dúvidas em vez
de nossas certezas?
f. Compare uma viagem que fez a um lugar distante e as impressões
que trouxe de lá, com o mergulho fundo em um poema e as impressões
que traz dele.
|
|
| |
|
|
| |
Fernando
Paço Borges: Um poema é um registro novo de linguagem, uma reinvenção
sobre algum pensamento desassossegado, ou um arroubo estético (seja
vindos do mundo real ou imaginário) para no fim alcançar um sentido
simbólico. Se o poeta esbarra na verdade, no entretenimento, no
pensamento, não há fórmulas. Acredito que um bom poeta trabalhará
sempre com a sua matéria-prima fundamental, a incerteza. Abaixo
segue um poema extraído de uma viajem que fiz a Nova Iorque. Poema
com imagens que poderiam se repetir em qualquer lugar do mundo.
Tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas.
Notas
subterrâneas
Uma gorda deforma
a América no peito.
Na mão de uma criança uma loira
leva 500 anos para se decompor.
Pelo estilo do cabelo,
e a caneta no bolso da camisa,
o arquiteto lê, com estilo, o jornal alheio.
Abaixo das más notícias
uma idosa masca uma goma inexistente.
Dentro de um executivo o
ar é clandestino, a vida hipertensa.
O metrô funciona.
Oferece algum caminho.
Na estação seguinte a gorda salta
deixando um rastro de luz
do tecido fosforescente. |
|
|
|